Coordenado por Leo Janeiro (RMC) e Gary Smith (ADE), o Rio Music Conference 2017 conta com um time de curadores especializados com o objetivo de programar e proporcionar a melhor experiência de troca de conhecimento, organizando os temas dos nossos painéis e workshops de forma que abordem todos os aspectos da vasta cadeia produtiva da música eletrônica e entretenimento. Esta coluna irá traçar o perfil de cada um desses curadores que, claro, estarão presentes no RMC.

Mauricio Soares é diretor de marketing da antiga ID&T e agora Plusnetwork. Tomorrowland Brasil e o futuro Electric Zoo estão na lista de grandes eventos com os quais Mauricio costuma trabalhar. Conversamos com ele para entender melhor sua visão do mercado da música eletrônica atualmente.

mau soares

Como você tem contribuído para nossa cena nos últimos anos?

Eu sinceramente não gosto de falar de mim mesmo neste sentido. Sempre acho que fica meio pedante, um tapinha nas próprias costas. O que posso dizer é que já participei – e participo – desta cena das mais variadas formas: como público, DJ, fotógrafo, organizador de eventos, manager, profissional de marketing e comunicação e até como articulista. O quanto cada uma dessas coisas contribuiu para a cena, não cabe a mim dizer.

Qual a importância que você vê em um evento como o RMC para o cenário nacional?

O RMC é um grande encontro, uma oportunidade de se relacionar com pessoas de diferentes lugares do país e de diferentes segmentos do cenário eletrônico. É também uma rara oportunidade para absorver novos conhecimentos e fazer contatos profissionais.

Como você enxerga a nossa cena atualmente, entre pontos positivos e negativos?

Eu não creio que seja possível dar uma única resposta para esta pergunta. Num país com as dimensões e as peculiaridades regionais que o Brasil tem, não é admissível falar de uma cena apenas. São várias, cada uma com seus desafios, qualidades e deficiências.

De forma geral, vejo uma certa “crise de adolescência”. O mercado cresceu, se desenvolveu, mas ainda não é um adulto – apesar de às vezes ter certeza de que já é.

Se de um lado já hospedamos alguns dos maiores festivais do planeta e somos parte do roteiro de vários dos mais importantes artistas em escala global, falta ainda um maior desenvolvimento da cadeia de valor como um todo, tanto em termos de oferta como de know-how. Falta volume e capilaridade. Falta o reconhecimento deste mercado como parte integrante da economia, gerador de empregos e promotor do incremento da atividade econômica através do turismo, comércio e serviços. Temos exemplos recentes que deixam claríssimo o preconceito que ainda existe contra a música eletrônica, e o quanto que este segmento ainda é incompreendido por muitos.

Do alto da sua vasta experiência na sua área, como você pretende agregar ao RMC?

Prefiro não ver as coisas “do alto” da minha experiência. Sempre acreditei que é melhor manter uma postura de curiosidade, abertura e empatia. Todo dia aprendo algo novo, e acho mais produtivo me cercar dessas experiências e das pessoas que as proporcionam do que me colocar numa posição superior e inatingível.

Até hoje eu me relaciono pessoalmente com o público dos eventos da Plusnetwork em social media. Faço questão de atender às pessoas que buscam falar comigo. Tenho minhas limitações, claro, mas acredito que este contato me protege da alienação que poderia me tornar obsoleto num mercado em constante mutação.

Para o RMC eu sempre tento trazer essa mesma postura. Eu posso falar daquilo que conheço e dar a minha opinião sobre o assunto, mas acima de tudo eu gosto da troca, de poder estar junto com outras pessoas que me inspiram – estejam elas no palco ou na platéia.

Quais são as suas apostas para as tendências do mercado no ano que se segue?

Este ano não será fácil. Acredito que será menos crítico do que 2016 pois estaremos mais preparados para a pedreira que está por vir, mas realmenta não acredito que será mais fácil.
Toda crise, porém, é uma oportunidade para inovar. A crise é como um “assento-ejetor” para a zona de conforto, e isso é ótimo. Precisamos disso.

Vemos hoje uma ascendência dos eventos de techno e outras vertentes com viés mais underground. Acredito que isso irá contribuir com a tendência de disseminação dos “festivais-boutique” (festivais de menores dimensões e com público mais específico) por aqui. Vejo também cada vez mais marcas estrangeiras de eventos desembarcando no Brasil. Isso demonstra que o nosso mercado ainda é bastante atraente.

Com os fees de artistas “top 10” internacionais em patamares proibitivos para a nossa realidade, especialmente levando-se em consideração as exigências de riders técnicos complexos e de alto custo para suas turnês, acredito também que o espaço para crescimento dos artistas internacionais do segundo escalão – e para artistas nacionais de todos os níveis – continuará a se ampliar. É preciso apenas cuidado para que o custo desses artistas mantenha-se alinhado ao seu valor. Aumentar cachê sem que isso esteja em sintonia com a atratividade de público que o artista proporciona e de forma incompatível com o nível de entrega do seu show é absolutamente insustentável – e não existe uma fórmula mágica para resolver essa equação.