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Bem-vindos à nova coluna do Portal RMC, que vai entrar, literalmente, no dia a dia dos clubs, através de entrevistas com os proprietários e/ou diretores, a fim trazer à luz do mercado os maiores desafios e oportunidades no ambiente de negócios das instituições que alimentam semanalmente, ao vivo, a cultura eletrônica no Brasil.

Para começar, escolhemos o emblemático Warung Beach Club, templo sagrado da música eletrônica conceitual no país, na entrevista abaixo representado pelo sócio Gustavo Conti, que nos atendeu enquanto viajava para a Europa, para cuidar presencialmente das datas do “Warung Europe Tour” durante o verão europeu. Confira!

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Estamos falando em um momento em que o Warung Club está em tour pela Europa. Quando começou esse movimento de levar o templo para outros lugares?
Começou em 2005, na DC10, em Ibiza, o primeiro evento do Warung. Conheci Andrea e Antonio (donos) e somos amigos até hoje. Gosto muito daquele club, sou muito grato por nos deixarem entrar em Ibiza pela porta da frente. Realizamos mais dois eventos nos anos seguintes e depois uma temporada todas as quartas-feiras na Privillege – foi um desafio que me permitiu entender como a cena na ilha funciona, a competitividade entre os clubs e também o alto nível de marketing, branding, decoração, etc.. Depois fizemos eventos na Pacha e nos últimos anos temos uma ótima parceria com o Amnesia, que é o lugar onde eu sempre quis chegar, falando de nossa trajetória na ilha.

Como se dá a realização de uma edição em um club como a Pacha Munique, por exemplo? Trata-se de um simples booking de DJs do time em que se “envelopa a data” com as marcas envolvidas ou há algo a mais envolvido no deal (como cenografia, por exemplo)? Esse tipo de ação é lucrativa para o negócio ou vocês enxergam como um investimento de branding global?
É bom deixar claro que nossa posição geográfica é desfavorável, bem longe dos centros do mundo. Particularmente vejo nosso país como uma Cuba imensa, onde os impostos e leis injustas limitam o desenvolvimento de nossa cultura.  Jamais recusamos uma tentativa de parceria com boa música que julgamos ter a possibilidade de dar certo. Isso tem a ver com conquistar nosso espaço lá fora, isso quer dizer slots para nossos residentes brasileiros e internacionais terem a oportunidade de mostrarem seu trabalho. Consolidar a marca. Fazer com que parceiros internacionais entendam a vantagem de comprar ou adicionar nossa marca em seus eventos. Isso para mim é muito claro hoje: brasileiros estão em todo lugar do mundo, mas quando tem um evento do Warung ele atrai um público seleto que gosta de música boa.
Começamos realmente a focar e a organizar as tours internacionais nos últimos três anos. O resultado para mim foi impressionante: ano passado demos ‘sold out’ nos eventos em Londres (3.000 pessoas) e Barcelona (2.500 pessoas). Em Berlim fizemos uma quarta no Watergate com metade do club aberto e bombamos só com residentes brasileiros. Foram 4 datas ano passado, esse ano são 8 datas. E sim, tem decoração, software com imagens, flags, chaveiros, leash de isqueiros, bolsas ecológicas, adesivos, camisetas, leques, enfim, todo merchandising possível. Vendemos nosso label na Europa nos mesmo formato que fazemos no Brasil. Atualmente temos mais datas fora do Warung que dentro.

Fora a tour, como estão as aberturas na sede ultimamente? O Warung também tem sido impactado por essa onda que tanto se comenta em vários países de enfraquecimento dos clubs, em virtude de fatores como o número crescente de festivais, festas itinerantes e crise econômica?
Ali na região não vejo isso acontecendo porque os clubs já são meio que um festival. Por isso praticamente não existem clubs pequenos, assim como não é fácil fazer big eventos por vários motivos.

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Como é composto hoje o quadro societário do Warung atualmente?
Somos em cinco, mas eu, Renato e o Jeje administramos diretamente. Trabalhamos em conjunto com todo o nosso staff, alguns funcionários estão comigo há mais de vinte anos.

Em termos de planejamento, como vocês trabalham? Com qual frequência se reúnem e como organizam tantos assuntos em torno da marca (club, tour, festival, selo e loja)?
Não há um modelo. Eu, por exemplo, respiro Warung 24 horas por dia e, se precisar entregar flyer ou atender no bar, eu vou. Já fiz isso muitas vezes.

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O Warung ainda mantém um selo, o Warung Recordings, que além de fomentar a cena com releases super quentes do ponto de vista conceitual, ainda ajuda a transmitir o conceito do “templo”. Quais os planos do selo para os próximos meses?
O label hoje é parte fundamental da nossa estratégia, estamos de passo em passo descobrindo como trabalhar neste mercado, porém o mais importante é que podemos dar suporte a bons artistas, tanto nacionais como internacionais, e música de qualidade. Temos 25 releases lançados, alguns charts alcançados e agora um trabalho de PR internacional grande e focado em aumentar a visibilidade do selo. Temos nossa programação de lançamentos até o final do ano e todos trazem a atmosfera do Warung.

A loja já se tornou autossustentável do ponto de vista financeiro? A adesão do público é maior no ambiente online ou nas próprias aberturas, quando as pessoas estão imersas?
Sim, fico muito feliz com o resultado da loja, foi um dos setores que mais cresceu no último verão. O ambiente online vem numa crescente à medida que realmente começamos a focar nisso. Temos a pretensão de ser uma marca Warungstore, não só a camiseta do club. Acho que esse é nosso próximo desafio.

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O Warung Day Festival ganhou mais um Prêmio RMC este ano e parece ter se consolidado, de fato. Qual sua avaliação sobre a edição deste ano e qual sua visão sobre a tendência de fortalecimento dos “festivais-boutique” (vide Dekmantel e DGTL)?
Acho que esse será o futuro dos festivais, aquela massa humana dos grandes festivais vai ficar gradativamente mais complicada aqui na selva por vários motivos, principalmente segurança.

Falando em festivais, vocês iam trazer o The BPM Festival ao país. O adiamento se deu por conta daquela fatalidade que rolou no México? Que desfecho podemos esperar? Afinal, o BPM ainda vem ao Brasil?
Acho que o motivo do adiamento é meio óbvio: respeito e consideração.  No momento estamos esperando a definição do BPM na América Do Norte para marcarmos o da América do Sul.

Já é possível se fazer algum prognóstico sobre o cenário de 2018? A tendência, em relação à crise política/econômica do país, é melhorar ou piorar na sua análise?
Enquanto os estados não tiverem autonomia, com leis adaptadas as suas realidades, com nosso dinheiro bem investido em educação, saúde e segurança… Impossível!