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Bem-vindos à nova coluna do Portal RMC, que vai entrar, literalmente, no dia a dia dos clubs, através de entrevistas com os proprietários e/ou diretores, a fim trazer à luz do mercado os maiores desafios e oportunidades no ambiente de negócios das instituições que alimentam, ao vivo, a cultura eletrônica no Brasil.

Tido como o “primeiro sunset club do país”, o Laroc Club, localizado em Valinhos, interior de São Paulo, caminha para completar seus dois primeiros anos de vida, em Outubro. Até aqui o club tem uma média de 18 aberturas por ano e em 2017 entrou para o ranking dos 100 melhores do mundo, em votação pública organizada pela revista britânica DJ Mag.

Na lista de atrações que já tocaram no club, estão artistas diversos do cenário internacional, como Hardwell, Nicky Romero, Guy Gerber, Alok, Vintage Culture, Axwell, Galantis, Claptone, Ferry Corsten e Erick Morillo, dentre outros. Enquanto esta entrevista vai ao ar, o Laroc já divulgou sua agenda de próximos eventos até o mês de Setembro: 29/Jul (GoldFish Live e Cat Dealers), 19/Ago (Sharam e Rodriguez Jr.), 16/Set (Luciano) e 30/Set (Matador).

Na entrevista abaixo, o sócio-diretor artístico Mario Sergio de Albuquerque conta como é o dia a dia da gestão do club e antecipa as novidades que vêm por aí, incluindo a produção de um festival próprio, a ser realizado no complexo que envolve o Laroc, a Folk e a Prainha. Confira!

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Qual sua avaliação, como empreendedor, desses primeiros dois anos quase completos do Laroc?
Nossa avaliação é positiva. A abertura se deu em um momento muito conturbado do país, e muitos nos chamaram de loucos. Porém, ao mesmo tempo, se estabelecer em um momento como este nos reserva algo muito promissor a médio/longo prazo. É um grande desafio se estabelecer como club em um momento onde os eventos estão em alta e a frequência em clubs menor. Mas estamos muito satisfeitos com o que conquistamos até aqui.

Quais são as maiores dificuldades na gestão de um club desta dimensão?
Não encontro dificuldades no âmbito pessoal. Pelo contrário: é um enorme prazer trabalhar com o que se gosta. Claro que existem datas em que eu talvez tenha algum compromisso particular e sempre fica aquele dilema de não estar presente no club. Mas em dois anos, nunca deixei de estar presente em uma abertura. No mais, são dificuldades do mercado como um todo. A venda de ingressos é algo que assombra produtores de eventos. Mas isso é um círculo vicioso que foi criado pela própria indústria, que ao não vender ingressos antecipados, se desespera e começa a distribuir cortesias sem o menor pudor para ‘recuperar’ no bar. Isso vai canibalizando o mercado como um todo. É algo que infelizmente não conseguimos controlar, mas sim não compactuar com isso. Prefiro ter uma noite vazia do que recheada de cortesias, pois é um caminho sem volta. Hoje a produção funciona muito bem, afinal já são mais de 30 aberturas e sem dúvida a repetição faz com que o nível de excelência aumente cada vez mais. Na comunicação, conseguimos ter uma relação próxima do cliente, e talvez a maior dificuldade seja não se deixar levar a toda e qualquer opinião. Claro que é importante estar atento ao que se fala de forma positiva ou negativa, mas não é algo que pode balizar as diretrizes e decisões – hoje temos os xiitas de rede social que atuam para tumultuar, mas procuramos nos manter sempre atentos a opiniões e críticas em geral. Do ponto de vista artístico, a maior dificuldade é o período de baixa oferta de atrações devido ao verão europeu, sem dúvida é onde precisamos ser criativos.

Tenho ouvido comentários muito positivos de artistas e pessoas ligadas ao mercado quando se referem à curadoria artística do Laroc. Como se dá este trabalho na prática? Conte-nos um pouco como funciona o processo de contratação de headliners (desde a pesquisa até o fechamento do contrato) e também de novos talentos.
O mais importante é ter a própria convicção. Hoje em dia vemos uma cena brasileira sem criatividade, repetitiva, fazendo só o que ‘funciona’ financeiramente. Outro ponto importante é não ser rotulado por uma única vertente musical. Somos abertos a todos os estilos, isso abre bastante o leque para trabalhar com variedade e menos repetição.
Dentro de um cenário de 18 aberturas por ano temos um planejamento bem estabelecido. Sei quanto posso gastar com atração por ano e dentro deste cenário fazemos alguns investimentos maiores e outros menores. Importante é manter o equilíbrio dentro do ano. Existem datas que fazemos sabendo que não teremos resultado, às vezes até prejuízo, mas é importante para o que chamamos de ‘marketing de manutenção’.
Outro fator que levo muito em consideração é estar antenado no que vai estourar e apostar antes dos demais. Tivemos alguns cases de sucesso ainda este ano como Jonas Blue, Kungs e Galantis, que eram novidades no nosso país e que se mostraram um excelente custo-benefício. Assim como existem outras noites, como a com Erick Morillo, que hoje não é um grande ticket-seller, mas tem uma entrega incrível e importante para a cena musical brasileira, então a falta de resultado financeiro é compensada na outra ponta. Precisamos ter este equilíbrio. Não dá para fazer só o que gosta ou só o que dá resultado.

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Após a entrada para o #Top100Clubs, você sentiu que o mercado internacional (agências, sobretudo) passou a respeitar e a desejar mais o club? Ou isso já vinha acontecendo de forma espontânea?
Acredito mais no boca a boca e no amadurecimento do negócio do que o ranking em si. No final ele é importante para o público, para patrocinadores, e leigos que querem conhecer algo novo. Acho que a indústria em si não se pauta somente pelo ranking. Claro que é uma visibilidade importante e todos querem estar bem colocados, mas acho que o reconhecimento vem do trabalho realizado no dia a dia , na satisfação dos artistas, na experiência do público e do buzz em mídia social. Não tive até hoje feedback negativo de artista e consequentemente de agências do mundo todo. Pelo contrário, a cada ‘debut’ de artista/agência, as ofertas aumentam. Então essa é a maior mensagem para nós de que estamos no caminho certo.

Recentemente vocês trouxeram o holandês Ferry Corsten, que deixou os fãs de Trance europeu em êxtase, tanto na pista como nas redes sociais do club no pós-evento. Vou colocar aqui uma questão que vem diretamente desses fãs: haverá mais artistas dessa natureza nos próximos meses?
Sim, haverá. Teremos um grande nome de Trance no carnaval, e provavelmente mais alguma no segundo semestre de 2018. Dentro das 18 datas, a ideia é ter duas por ano voltadas a este público para manter nossa estratégia de ter todas as  vertentes presentes no club.
Foi um grande desafio fazer o Ferry, que não vinha ao país havia um bom tempo para evento ‘solo’. A última vinda dele tinha sido no Tomorrowland, em 2015. O público do Trance é muito fiel e engajado, então apostamos e foi uma noite que sem dúvida abriu os horizontes para novas experiências.

©2017 Gui Urban

Qual foi a abertura que mais te surpreendeu até hoje, em termos de som e de público?
Cada noite tem sua particularidade, poderia aqui ficar elencando os porquês de cada uma delas, mas acho que a noite do Guy Gerber foi especial. Não esperávamos a quantidade de público que tivemos e musicalmente foi muito foda! A aceitação musical foi muito boa e sabemos que o Guy é mais viajante do que uma ‘bombação’ e foi incrível a conexão criada nesta noite com a pista. Um set de 3 horas é importante nestes casos, se fossem os tradicionais 90 minutos talvez o impacto teria sido o inverso, pois não teria o mesmo contexto.

©2017 Gui Urban

Em termos de receita, o Laroc já obteve todo seu retorno sobre o investimento ou está próximo disso?
Nós fizemos uma previsão de 36 meses para ter o retorno sobre o valor investido. Isso pode variar para mais ou para menos, depende de nosso entusiasmo. Temos muito cuidado com nosso patrimônio, então é normal que se reinvista dinheiro na operação para melhorias e correções para uma melhor experiência de nossos clientes. Além da compra de elementos de produção que antes eram locados e aí você deixa de ter liquidez, mas passa a ter ativos.
Digo entusiasmo, pois sempre estamos buscando coisas novas e às vezes temos que deixar a ‘emoção’ de lado e saber dizer não. Acredito que ao completar três anos de operação devemos ter as finanças equilibradas contando com uma reação econômica do país.

Entre as próximas aberturas do Laroc, dá pra sacar que há bastante Techno na programação (Oliver Huntemann, Sharam, Rodriguez Jr., Luciano, Matador)? É um reflexo do momento? Em outras palavras, o Techno está dando retorno?
A diferença entre as vertentes aqui é o custo-benefício. O mainstream ficou impagável para a maioria dos clubs e não traz retorno suficiente, especialmente no Brasil, onde temos uma moeda desvalorizada. No Techno e outras vertentes, onde a variedade é maior, você encontra nomes com bom custo-benefício e consequentemente apresentam um melhor retorno.
Mas é inegável que a ‘onda’ Techno está muito forte no mundo todo. Acho que no Brasil veremos um crescimento ainda maior no próximo ano. É meu gosto pessoal de música, acabei de voltar do Awakenings Festival e Ibiza, onde frequentei eventos de Techno, em sua maioria e todos sold out.

Estamos acompanhando uma espécie de multiplicação de festivais (de todos os portes) no Brasil. O quanto isso atrapalha ou ajuda o negócio de vocês e como o Laroc pretende se aproveitar dessa tendência em um médio prazo?
Acho muito positivo a vinda de festivais para o país, isso ajuda na evolução e no crescimento da cena como um todo.
Está nos nossos planos realizar o LAROC FESTIVAL. Ainda há uma dúvida sobre o período exato, mas é fato que iremos tirar do papel esta ideia. Vamos trabalhar com três pistas na sua primeira edição. Usaremos a estrutura da Laroc somada da Folk (casa sertaneja dos meus sócios do outro lado da rua) e mais um palco open-air na antiga ‘prainha’, onde aconteciam muitos eventos anteriormente. Estamos em fase de discussão com a Prefeitura, mas vocês podem esperar este próximo passo em um futuro próximo.

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Sobre o aniversário de 2 anos do club, pode revelar o que teremos de novidades no segundo semestre?
Teremos novidades, isso é fato. Decidimos manter segredo dos detalhes e divulgar somente no aniversário, que acontece dia 14 de outubro. Mas posso adiantar que faremos uma completa revolução em nosso palco. Um novo stage design, um novo conceito e uma nova experiência para o público que frequenta o Laroc. Confesso que estou muito feliz com o andamento e com grandes expectativas para isso.