Se você ainda não descobriu Ney Faustini, está na hora (ou passou da hora) de descobrir. E sábado em São Paulo é uma boa oportunidade: o DJ brasileiro que tocou na primeira edição do Boiler Room no Brasil, além de festivais como Dekmantel, se apresenta na primeira edição do festival holandês DGTL no país.

Pesquisador musical há 18 anos, Ney teve papel fundamental na disseminação do Drum’n’Bass no Brasil e, de alguns anos pra cá, passou a se dedicar a vertentes como House e Techno conceitual, dirigindo profundamente sua pesquisa a cidades como Chicago e Detroit. E é inevitável dizer que ele obteve grande destaque.

Confira o bate-papo com o DJ/produtor paulistano e programe-se para o DGTL São Paulo, que vai reunir nomes como Âme, Recondite, Carl Craig e Apparat, dentre outros.

Ney Faustini (foto Gabriel Quintão) (2)


RMC: Pouca gente deve saber, mas nós acompanhamos o início da sua carreira e este editor que lhe entrevista curtiu vários dos seus sets de Drum’n’Bass no início da década passada, incluindo aquele na Parada AME 2003… Você também sente saudade desta época de ouro do gênero que o revelou?

Ney Faustini: Acho que sempre há um saudosismo saudável quando falamos de música e festas, especialmente se tratando duma época em que o Drum’n’Bass vivia, como você bem disse, uma época de ouro. Eu comecei a comprar discos em 1999, e dali, por pelo menos 6 ou 7 anos, vivi intensamente o estilo, sem deixar de me aprofundar nas suas raízes, o que contribuiu pra que eu fosse abrindo minha cabeça musicalmente. Mas sim, foi uma época muita rica musicalmente pro estilo, vimos alguns dos maiores nomes em seus auges, e guardo com carinho todas as memórias e discos desse período.

RMC: Muitos DJs que começaram no D&B hoje estão chamando a atenção da cena House/Techno, seja discotecando ou produzindo. Além de você, podemos mencionar o talentoso Marcus Intalex, que através do codinome “Trevino” tem lançado suas produções por selos como a Hotflush, do Scuba… Tenho uma ligeira impressão de que na música eletrônica quem começa no D&B tem mais “facilidade” em outros gêneros, tipo o futebol (quem começa no Futsal geralmente tem muito mais habilidade). Brincadeiras à parte, este background riquíssimo certamente contribuiu, certo?
NF: Talvez sim, até porque sempre me interessei pelo D&B mais musical, mas acho que essa via que alguns DJs e produtores acabam tomando tem muito a ver com uma expansão criativa, fugir de fórmulas… No meu caso, sempre mantive minha cabeça muito aberta musicalmente, tanto pra House e Techno quanto pras raízes de tudo que envolve a música eletrônica. Se hoje eu amo e pesquiso Funk/Soul, Jazz, Disco e MPB, por exemplo, foi porque me interessei pelas origens. Esse mesmo interesse fez com que eu me aprofundasse em Detroit e Chicago. Talvez isso tenha influência do meu começo no D&B, mas acho que ter a cabeça e ouvidos abertos foi essencial pra que eu fosse moldando minha identidade como DJ e produtor. E acho que existe uma semelhança na sonoridade do que toco hoje com o que eu tocava 15 anos atrás, mesmo se tratando de estilos e BPMs distintos.

RMC: Você foi eleito, por votos de embaixadores (gente envolvida na cena) em 2012/2013 como “DJ Revelação” no Prêmio RMC. Por que o mercado brasileiro demorou a descobrir seu trabalho?
NF: Acredito que aconteceram várias coisas nessa época que contribuíram pra que mais pessoas conhecessem meu trabalho. Eu já tinha passado da fase da “mudança”, em não ser visto como um DJ especificamente de D&B. E por mais que eu fosse um artista mais “low profile” até então, era um momento de amadurecimento. Tinha 3 residências em SP, tocando com boa freqüência no D-Edge, lançava meus primeiros EPs em vinil, e fui convidado pra me apresentar na primeira edição do Boiler Room por aqui. Acho que tudo acabou acontecendo no momento certo pra que eu fosse indicado e eleito na votação daquele ano.

RMC: Na sua avaliação, a música eletrônica conceitual ainda tem muito a crescer no Brasil?
NF: Com certeza, até porque o acesso à música é cada vez maior e irrestrito, e naturalmente isso gera maior alcance e interesse de diferentes públicos. Modismos vem e vão, mas eu vejo trabalhos, festas e núcleos cada vez mais sólidos e maduros em grandes e pequenas cidades do Brasil. Gente que está envolvida e trabalhando por amor a essa música, seja ela qual for.

RMC: Você e o Cleber Portaro tiveram um papel fundamental na disseminação da cultura do D&B no Brasil através do site drumbass.com.br, concebido em 2000. Não acha que faltam veículos específicos hoje no Brasil com este perfil para divulgar artistas de vanguarda?
NF: Quando a difusão da informação é feita por pessoas que realmente gostam e vivem disso, tudo tende a fluir naturalmente. No drumbass.com.br fazíamos por amor à música, sem grana ou patrocínio… Nenhum de nós era jornalista, mas o site disseminou muita informação relevante, e teve seu início, meio e fim. Sobre veículos específicos à música e artistas de vanguarda, acho que eles vem surgindo e ganhando espaço. Comparando com 2 ou 3 anos atrás, melhorou bastante, e a maioria dos grandes portais de música eletrônica trazem várias pautas e colunas relacionadas à isso. Acho que vem acompanhando naturalmente o crescimento e interesse nessa música por aqui.

RMC: Como surgiu o convite para se apresentar no DGTL São Paulo, que acontece neste sábado?
NF: O convite veio através da Larissa Correia, produtora e curadora do DGTL no Brasil.

RMC: Dessa vez não será abertura (como foi no Dekmantel), né? O que você pode adiantar do seu set na primeira edição do festival no Brasil?
NF: Sim, são situações bem distintas, já que no Dekmantel abri o palco ainda no começo da tarde, era outro clima. Desta vez toco às 23h, já com 3 horas de festival rolando. Estou separando muita coisa entre house e techno, especialmente Detroit e Chicago, mas é o momento que vai me guiar ali na hora. E estou bem feliz em tocar antes da Tama Sumo e da Lakuti, que são duas das minhas DJs favoritas.

RMC: Poderia nos atualizar sobre seus últimos trabalhos no estúdio?
NF: Tenho dois remixes pra sair neste semestre: um pra dupla Klankvol, no selo Totoyov, e outro pro Bruno Limma, em vinil pela Mentha Records. Agora estou trabalhando em mais dois remixes: pro Boghosian, na AIA Records, e pro japonês Tominori Hosoya, em vinil pelo selo espanhol Bucketround. Depois disso vou dar uma pausa nos remixes, e focar em releases autorais no segundo semestre.

RMC: Você sente que está vivendo a melhor fase de sua carreira artística hoje?
NF: Posso dizer que estou feliz e inspirado com o momento, mas acredito no amadurecimento contínuo do trabalho, então a sensação deve ser de evolução, sempre. Sei que tenho muita coisa pra conhecer e aprender, seja no “digging” ou em estúdio, e esse é o maior estímulo que eu poderia ter.

TOME NOTA: Ney Faustini se apresenta no DGTL São Paulo neste sábado (06 de maio), no palco “Frequency”, às 23h00. Ingressos disponíveis aqui.

Fotos: Gabriel Quintão.