Vida de produtor é assim: nada como se manter na ativa e esperar o momento certo para “dar o bote”, né? Falamos com Daniel Acorsi, o Dani, do projeto Scorsi, que acompanhou pela TV, no último final de semana, Alok tocando dois remixes assinados por ele para seus dois grandes hits (“Hear Me Now” e “Love Is A Temple”).

A repercussão, claro, foi grande. “Meu telefone não parou até agora”, conta o DJ/produtor, que é certamente a grande revelação da Bass Music nacional da atualidade, embora já esteja na ativa há alguns bons anos. Em 2016 ele ganhou o Concurso de DJs Miller Soundclash, que o levou a se apresentar na Marquee, em Las Vegas. Na sequência vieram bons lançamentos, incluindo o bem sucedido remix para a canção “Living On The Outside”, de Bruno Martini.

No bate-papo abaixo, além de dar boas risadas com as tiradas de Dani, você vai sacar que esse guitarrista/baterista/produtor/publicitário ainda vai dar muito o que falar…

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Você acaba de fazer dois remixes para o Alok (“Hear Me Now” e “Love Is A Temple”). Como surgiu esse convite e como está sendo a repercussão após ele ter tocado as duas versões no maior palco do mundo (Villa Mix Festival Goiânia) alguns dias atrás?
Cara, te digo que ainda não processei nem o convite, quanto mais ver o resultado ao vivo na TV. Foi tudo muito rápido, e olha que eu sou lento. Eu recebi uma mensagem de um amigo ligado ao Alok, se eu toparia fazer um remix para a “Love Is A Temple”. Alok ouviu meu remix da “Living On The Outside”, do Bruno Martini, e gostou bastante. Queria algo novo, fresh, nessa praia. Obviamente eu topei, e entreguei em 2 dias. Recebi o feedback e OK dele muito rápido também. E no dia seguinte ele mandou uma mensagem pedindo outro remix para a “Hear Me Now”. Eu engasguei, cuspi o café e amoleceu a perna na hora, mas sentei no estúdio e fiz. A sensação de ouvir os remixes em um palco desse porte é surreal, passa um filme de como um projeto vazio se transformou naquilo, e o quanto valem as horas investidas em algo que te deixa tão feliz. A repercussão também me pegou de surpresa. Meu telefone não parou até agora, mensagens no facebook, Instagram… Me emociono com cada comentário e demonstração de carinho de quem ouviu. Me faz querer mais.

Do título do Miller Soundclash Brasil até aqui, este foi seu maior trunfo com o projeto Scorsi?
Eu diria que é o degrau mais incrível na história do projeto, mas não estou nem perto do fim. Eu iniciei o Scorsi porque queria fazer coisas diferentes do que eu fazia antes, não só musicalmente. E de cara consegui isso, colocando uma música na trilha sonora do filme “Reveillon –  A Noite da Virada”. Depois disso assinei a “Recovery” com a Musicmasters, licenciada para o Summer Eletrohits 2016 da Som Livre, e fui o único brasileiro a entrar na coletânea. Na sequência lancei pela Skol Music, selecionado por ninguém menos do que o Zegon (Tropkillaz). De lá pra cá, eu consegui manter o que eu queria, de não me prender a rótulos e explorar todo conhecimento musical que eu tenho em diferentes BPMs.
O Miller Soundclash foi outro lance inesperado, nunca tinha participado de nenhum campeonato, e ganhar então foi melhor ainda. O fato de tocar no Marquee, em Las Vegas, sendo um dos pouquíssimos brasileiros que já passaram por lá, foi o que mais valeu da experiência toda. E, claro, fazer o remix para o Bruno Martini foi muito importante pra mim. Acho ele um excelente produtor, a música em si é uma obra de arte. Conseguir dar minha cara e ouvir ela diariamente na rádio foi muito gratificante.

Tenho acompanhado suas publicações no Snapchat e Instagram e confesso que me divirto muito com a abordagem leve e humorística que você faz. Esta é uma orientação que vem do Manager ou é mero lifestyle?
Haha! Obrigado, mas às vezes nem eu acredito nas coisas que posto. Nada é planejado ou direcionado. Se você olhar desde as primeiras postagens, sempre foi assim. É um simples reflexo de como eu sou no dia a dia, com os amigos (os reais e os bonecos do estúdio). Eu procuro sempre estar no melhor humor e ver o melhor das situações, e acabo fazendo piada de tudo e todos. O conteúdo é totalmente espontâneo (a não ser a campanha da “Like This”). Do nada começo a gravar e algumas coisas viram histórias. E claro, rola um lance de “cabin fever” por ficar tantas horas (e dias) sozinho no estúdio. Mas meu psiquiatra disse que eu sou normal, e eu acredito nele.

Você está na música há bons anos e eu acompanho seu trabalho desde o projeto C.A.B.L.E., de Drum’n’Bass, que, corrija-me se estiver errado, foi o primeiro projeto nacional a lançar pela Renegade Hardware. Dias atrás vi você “passando mal”, no bom sentido, durante o set do Marky na última DJ Marky & Friends. O gênero ainda mexe muito com você?
Isso, corretíssimo (pra minha supresa! rs). Eu tive alguns releases antes do C.A.B.L.E. ainda, com outros nomes. Mas fui o primeiro brasileiro a lançar na RH, assim como na 31 Records, Bad Company Presents e mais alguns outros. Eu sou fruto da Bass Music desde o primeiro software que usei na vida. Eu amo a música, mesmo com tanto release durante todos esses anos, eu sempre continuei com aquela energia de fã. É meu berço na produção, minha história e minha evolução. O próprio Marky foi minha referência desde o dia 1, e até hoje é o melhor DJ que já vi tocar no mundo. Mas eu sempre ouvi de tudo dentro da música eletrônica, eu comprava muitos discos de Techno e House antes de entrar no Drum’n’Bass. O mundo é grande, e o Scorsi existe pra explorar isso.

Como alguém que vem da Bass Culture e que acompanhou de perto todo seu desenrolar no país, como você avalia a movimentação do chamado “Brazilian Bass” que dominou o mainstream nacional de hoje graças à popularidade de alguns artistas como o próprio Alok?
Independente do meu gosto musical, eu acho que o Brasil nunca teve um movimento tão uniforme e massificado. Nós vivemos com ciclos aqui. Trance já foi gigante, Drum’n’Bass (a trilha sonora do Fantástico ganhou remix), Techno (agora novamente), EDM… Mas nenhum teve tantos artistas brasileiros envolvidos, ou um estilo 100% brasileiro. Tem que tirar o chapéu pra isso! Conquistaram algo inédito. Mas eu não classificaria como parte da Bass Culture. Essa cultura vai muito além da música, é o estilo de vida, diferentes referências, a valorização do som que emergiu das periferias e tomou as ruas, além do sound design diferente e a cultura do sample.

Tenho acompanhado suas viagens frequentes para os EUA. O que tem feito por lá?
Eu sempre volto pelo hambúrguer :P . Mas sobre o resto, há sim alguns projetos bem legais em andamento. Do que posso adiantar, eu assinei com a Insomniac (proprietária do EDC) para cuidar de “sync deals” do Scorsi nos Estados Unidos.

Nosso amigo em comum, FTAMPA, vive lá hoje em dia, certo? Você pensa em fazer o mesmo?
Esse é um tópico sempre presente nas nossas conversas. o Tampa é um dos meus melhores amigos e pensamos parecido sobre isso, apesar de eu ter que olhar muito pra baixo enquanto conversamos, e isso é ruim para minha cervical. Nós dois temos a mesma visão sobre mercado americano e as vantagens de morar lá, pela cultura em si também. Você respira inspiração diariamente, principalmente em lugares como Los Angeles e Austin. Planos existem, mas veremos pra onde a vida me leva. I’m here for the ride!

Paralelamente à carreira de DJ e produtor musical, que outras atividades você desempenha na música?
Eu sou publicitário por formação, diretor de arte, mas hoje não faço mais nada a não ser para os meus projetos. Eu já fiz algumas outras coisas na música, de promoter, a branding license e muita mix/master para outros artistas. Mas hoje estou 100% focado no Scorsi. Farei minha estreia como roteirista e diretor no meu próximo clipe. Escrevi o roteiro, e quando apresentei ao diretor, ele disse que eu deveria dirigir com ele, por ter a visão bem definida do que e como eu quero. Estou super empolgado com isso.

Já ouvi dono de festival dizendo que o Trap não pega no Brasil. Esta afirmação faz algum sentido pra você?
Esse lance de “pegar no Brasil” tem sempre um pouco do gosto pessoal. Já funciona na verdade, depende apenas da ótica que isso é visto. Quantas músicas já tocaram nas rádios nesses últimos 12 meses, dessa praia? O Trap não é só o barulhento, cheio de vocais de Hip Hop. O Future Bass em si é uma versão melódica do Trap. Já tivemos muitos exemplos de como funciona em shows e festivais também. Skrillex e Diplo diversas vezes (separados e com Jack Ü), Dillon Francis, Flostradamus, DJ Snake, Marshmello, The Chainsmokers, o nosso Tropkillaz, RL Grime, Flume… Espaço existe para todo mundo, ainda mais em um país diversificado como o Brasil.

Depois de seu último lançamento, “Like This” (em collab com Zuul), o que mais vem por aí? Pode adiantar para o Portal RMC as próximas novidades?
Ainda estou trabalhando a “Like This”. Tive um suporte bem legal até agora e vou explorar isso mais um pouco. Mas meu próximo single é a “So Simple”, com lançamento agendado para Agosto. Será meu primeiro release com clipe oficial (o que eu citei acima). Além dos remixes do Alok e algumas colaborações em andamento. No mais, é bom guardar algumas coisas pra falar mais pra frente, né? (risos).