Se hoje em dia o som que domina as pistas brasileiras é repleto de graves, isso se deve a alguns DJs corajosos que no início dos anos 90 foram pioneiros ao introduzir a Bass Music no país. Entre eles está o experiente e super habilidoso DJ Andy, que celebra seus 25 anos de discotecagem, com festão neste sábado (12 de Agosto) em São Paulo, em que vai receber convidados como Bizarre Inc, Dave Angel, Bryan Gee, Dillinja e Marky (com o qual vai encerrar o evento em uma apresentação em 4 decks, fazendo um B2B especial de Jungle), dentre outros “heróis”, como ele chama seus convidados.

Andy fez história com sua residência na lendária Over Night, casa noturna que disseminou a música eletrônica como poucos em São Paulo entre os anos 90 e 00. Ao lado de DJs como Marky, Patife e Koloral, foi pioneiro do Jungle e Drum’n’Bass no país, gênero que toca até hoje. Rodou o mundo, dividiu palco com seus heróis e tem uma legião de fãs, que conquistou, entre outros fatores, por sua técnica apuradíssima.

Hoje sua bagagem gigantesca está a serviço do público, com a apresentação do programa semanal Vinyl Sessions, em que recebe convidados para bater papo sobre música ao lado do DJ Julio Torres. Confira abaixo a entrevista e se você ainda não viu Andy em ação, pode se programar, porque como ele mesmo diz, “ainda tenho muita lenha pra queimar”…

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Andy, antes de mais nada, obrigado pela atenção ao Rio Music Conference e parabéns pelos 25 anos de carreira. Você se sente realizado a esta altura da vida, tendo dedicado boa parte dela à discotecagem?
Imagina, eu que agradeço! Então, sim e não (risos), porque ainda tenho muita lenha pra queimar. Realizei e participei de muitas coisas e algumas delas foram ainda mais além, como ter tocado nos clubs e festivais mais desejados do mundo e poder ter dividido palco com minhas referências e meus heróis dentro da música. Mesmo assim, ainda tem muita coisa pela frente, para acontecer e conquistar.

Voltando no tempo, lá no início dos anos 90… Como você descobriu o Jungle?
Sempre fui apaixonado por Hip Hop, Soul, Funk, Acid Jazz e pela House Music. Amo as coisas de DJs como Todd Terry, Masters At Work, Frankie Knuckles, David Morales, etc, e quando teve a fusão da batida quebrada com elementos da House, Techno, Hip Hop e Reggae, foi arrebatador, foi aí que tudo começou. Na verdade foi meio que a evolução da música e de artistas dos quais eu já era fã. Sempre procurava tocar coisas diferentes para poder educar meu público, fui muito influenciado por artistas como Rebel MC (que hoje é o CongoNatty ), NJOI, Bizarre Inc, Altern8, Moby, The Prodigy, SL2, Shut Up and Dance, Baby D, DJ Hype, e por aí vai, até porque me identificava muito com as batidas quebradas. Conheci através de selos como Suburban Base, Moving Shadow e Reinforced, para citar alguns, o que viria a ser o Jungle e o Drum’n’Bass.

Quais são os seus heróis da discotecagem? Aqueles caras nos quais você se espelhava quando começou, ainda na época da Over Night…
Isso vai um pouco antes ainda… Eu ouvia e gravava muito os programas de rádio do Iraí Campos, Grego, Cuca, DJ Hum, Silvio Miller, Double C, Vadão, Valtinho Bernaca, Cadico, Badinha e do Ricardo Guedes. Pode-se dizer que através dessa galera (e mais alguns) que se abriram as portas para a Dance Music entre 1986 a 1990. Nos tempos atuais tenho muita admiração por muitos DJs que são heróis, pois dedicaram a vida pela música, 10, 20, 30, 40 anos, vivendo por ela e para ela. Pra isso tem que ser herói mesmo! E ainda hoje aprendo muito com eles.

Quais foram os 5 melhores momentos (ou fatos ou conquistas) de sua carreira até hoje?
É difícil elencar apenas cinco, pois foram vários momentos, cada fase teve vários especiais: o dia que fui anunciado como o mais novo DJ residente da Over Night; a primeira gig fora de São Paulo; ter tocado em todas edições do Skol Beats; ter tocado no Tomorrowland; as turnês internacionais  (Europa, América do Norte e América do Sul); ter tocado no aniversário do Fabric em Londres, sendo um dos headliners da noite; nos festivais internacionais (1Nation, Global Gathering, West Fest Festival, Randon Concept, entre outros); ser eleito um dos 3 melhores DJs internacionais do mundo no “Drum’n’Bass Awards” de Londres em 2016. Tudo isso foi de grande emoção, mas o que vale mesmo a pena é ter o respeito e o carinho das pessoas.

Ao longo do último final de semana, vimos o belga Netsky fazer uma apresentação no palco principal do festival Tomorrowland, flertando, dentre outros gêneros, principalmente com o Drum’n’Bass, o que foi algo sem precedentes. O que falta no Brasil para termos o gênero ocupando (com destaque) os grandes festivais novamente?
Infelizmente nossa cultura é bem diferente da deles. Isso também se deve ao clima e ao que a mídia está “vendendo” no momento. Lá fora eles vivem música, então qualquer artista dentro da Dance Music que se destaca vai tocar nos grandes festivais e festas, independentemente do gênero musical. Hoje em dia, como artistas de Drum’n’Bass que tocam em mega festivais no palco principal, destaco não somente Netsky, mas também Chase & Status, Sigma, Andy C, Noisia e mais uma galera. Aqui no Brasil tivemos ano passado a tenda do DJ Marky no Tomorrowland Brasil – toquei nesta edição e posso dizer que o resultado foi bem positivo, muitas pessoas que não conheciam o som passavam e ali paravam para dançar. Ainda hoje tem gente que não conhece o Drum’n’Bass, as pessoas vão se reciclando. Hoje em dia vejo a Bass Music em grande destaque e os artistas acabam misturando tudo: Trap, Future Bass, Dubstep e D&B. O intuito dessa minha festa é isso: não é só a celebração do tempo de tocadiscos, mas sim apresentar música de qualidade para as pessoas, com artistas que foram sucesso nos anos 90, passando por vários estilos e chegando ao que toco hoje. Penso que as pessoas têm de aprender de onde é que veio o que se escuta hoje e o que vão ouvir amanhã, por isso o tema da festa é “passado, presente e futuro”.

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O que você já viu de mais “insuportavelmente bizarro” nesses 25 anos de estrada?
Nossa, vi muita coisa, é difícil escolher uma (risos)! Tanto nas festas mais underground como nas festas mainstream, sempre tem as bizarrices (risos)!

Hoje você apresenta o (excelente) programa Vinyl Sessions, às terças, ao lado do Julio Torres. Posso dizer que é meu programa favorito hoje em dia. Vocês estão felizes com a repercussão?
Sim, o programa nasceu de um bate-papo na sala da casa do Julio, aí abrimos o live e começamos a falar sobre música, quando de repente tinham 200 pessoas assistindo a gente. Vimos que o programa tinha um super potencial e investimos nele. É muito legal ver curiosidades que mesmo você sendo DJ por muito tempo sempre acaba aprendendo algo. O ideal do programa é esse: passar boa informação, nossos convidados não são somente em DJs, mas sim quem tem uma boa coleção de discos e um bom conteúdo para trocar ideia.
Fica o convite para a nossa página. Já recebemos convidados como Os Gêmeos, Claudia Assef, DJ Marky, KLJay, Mau Mau, Renato Cohen… Da nova geração temos o L-Side, Scorsi e o Bruno Furlan, dentre outros.

O line-up da festa que vai comemorar seus 25 anos de carreira inclui Bizarre Inc, Dillinja, Bryan Gee com MC Darrison, Marky e Dave Angel. Vai caber todo mundo no novo local? Qual a capacidade de público?
Sim, vai sim (risos)! Está tudo sob controle! O que aparentemente seria uma festa acabou virando um festival e estou mega ansioso, quero reunir todo mundo que fez parte de minha caminhada – desde o cara que me viu tocar pela primeira vez na Over Night, até o público novo que me acompanha atualmente e, claro, fiz questão de chamar todos meus heróis para compartilhar esse momento mágico comigo.

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(DJ Marky e Andy no festival Skol Beats, em 2006)

Você sempre foi DJ ao pé da letra, com a maestria de poucos no mundo. Em algum momento, ao longo desse tempo todo, você se cobrou por não ter tido a mesma frequência no estúdio?
Muito (risos)! É o que mais me cobro: ter tempo no estúdio, até porque hoje em dia não basta você ser um bom DJ, você tem que ter músicas próprias e é por elas que as portas se abrem. Mas logo mais tem novidades, estou trabalhando em um álbum, vem coisa boa aí…

Para finalizar a entrevista, duas perguntas: você pensa em deixar a profissão em algum dia ou isso nem passa pela sua cabeça? E seu filho, o Pietro, vai levar adiante o legado do pai?
Já passou, mas aí olho para trás e vejo quantas coisas e oportunidades que a música e a vida de DJ me proporcionou, e isso é o resultado de muito amor à profissão. Enquanto o amor pela música for mais alto, vocês vão me ver muito por trás dos toca-discos! Ahhh sobre o Pietro, às vezes ele brinca comigo, já experimentou estar no palco comigo, curtiu, mas não vou forçar nada, o que acho legal nisso é que ele se diverte e gosta muito de música. Isso pra mim já está bom.