Coordenado por Leo Janeiro (RMC) e Gary Smith (ADE), o Rio Music Conference 2017 conta com um time de curadores especializados com o objetivo de programar e proporcionar a melhor experiência de troca de conhecimento, organizando os temas dos nossos painéis e workshops de forma que abordem todos os aspectos da vasta cadeia produtiva da música eletrônica e entretenimento. Esta coluna irá traçar o perfil de cada um desses curadores que, claro, estarão presentes no RMC.

O convidado de hoje para nossa conversa é DJ Meme, um dos principais DJs e produtores brasileiros cujo pioneirismo foi base para diversos outros artistas. Sua carreira explodiu como um grande remixer e hoje DJ Meme compartilha seu conhecimento com as novas gerações através do seu workshop de música eletrônica.

DJ Meme 3

Como você tem contribuído para nossa cena nos últimos anos?

Todos os meses coloco 8 reais na caixinha escrito CENA, que fica na entrada do meu predio.

Brincadeiras à parte, minha real contribuição para a cena é mais antiga e extensa do que “os últimos 10 anos”, e começou há um bom tempo, quando os DJs não tinham credibilidade para produzir música. Naquele momento eu arrisquei, e acabou dando tão certo que abriu as portas para todos no Brasil. A história tratou de reconhecer que isso foi determinante para que o mercado e o público brasileiro olhassem para nós como ARTISTAS e não só como colocadores de discos.

Acho que atualmente minha maior contribuição foi ter criado o vencedor WORKSHOP DE MÚSICA ELETRÔNICA, que pelo visto disparou em todos os lugares a palavra WORKSHOP e o entendimento sobre isso como algo diferente e estimulante, e que faltava no cenário artístico para agregar aos cursos técnicos. Sou orgulhoso disso. Com o tempo e a experiência acumulada, tento passar adiante algo que qualquer um levaria anos para aprender, e mesmo assim, teriam que ter as experiências únicas que eu tive.

Nosso país e a tal “cena” estão precisando de conhecimento técnico e artístico, e é isso que o WORKSHOP entrega. É preciso fazer com que os novos artistas tenham algo que não tivemos no início de nossas carreiras: CONHECIMENTO. Não havia produtores de Dance Music no país que pudessem nos passar algo. Foi tudo na marra. Hoje, contribuo com o que sei.

Qual a importância que você vê em um evento como o RMC para o cenário nacional?

A maior importância desse evento para mim sempre foi o “gathering”. O encontro de todos os participantes. A energia gerada e passada ali só não atinge quem não quiser. Tenho orgulho de participar.

Como você enxerga a nossa cena atualmente, entre pontos positivos e negativos?

Positivamente vejo que estamos com as ferramentas certas na mão pela quantidade de gente nova, tecnologia e acesso ao aprendizado, masacho que de um momento para o outro começamos a usar tais ferramentas da maneira errada. Cada um hoje faz o seu isoladamente, procurando um lugar ao sol numa grande competição. Mesmo as “collabs” são cuidadosamente planejadas para o sucesso individual de cada um. Vai negar ? Não me refiro às exceções, mas a regra geral. É um tal de quem lança mais músicas por semana, quem já lançou em tal label, e o pior: quem faz mais gigs e cobra mais. Até as agências começaram a competir entre si, e certos agentes agora insistem em ser DJs, vendendo warm-ups para seus próprios artistas. Os egos estão inflados num momento errado. Tudo de cabeça pra baixo. Vejo até ódio nos olhos de algumas pessoas. Estamos no meio de uma grande crise nacional inegável, e esse acontecimento deveria nos unir mais para construirmos uma barreira juntos, e não nos separar.

Outro ponto negativo que acho que deveria ser revisto — e o RMC serve para isso — é observar que agora 95% do país faz música para conseguir gigs. O nível artístico e musical despencou na hora errada, justamente quando estávamos começando a entender do assunto. DJs que produziam seu próprio som abriram mão disso para entrar em competição com geral. É sempre bom lembrar (e a história ensina) que quem abre mão do seu valor artístico estará cedo ou tarde fadado ao fracasso. Não achem que será diferente aqui.

Do alto da sua vasta experiência na sua área, como você pretende agregar ao RMC?

Vou levar balinhas Juquinha e 7Belo para todos na sala. Ah… e também criei e vou moderar alguns painéis.

Quais são as suas apostas para as tendências do mercado no ano que se segue?

Esse será um ano difícil, ainda marcado pela crise e com esperança nas novas eleições de 2018, mas quando a crise passar, haverá uma geração nova longe disso tudo e que vai botar pra fuder.