palcao

A Tribaltech ocupa atualmente o posto de Melhor Festival do Brasil, segundo o IV Prêmio RMC – votação onde participam os membros do mercado de todo canto do país. O festival independente de música eletrônica que acontece em Curitiba desde 2004, se reinventou em 2014 e lançou suas três edições subsequentes: Reborn (2014), Evolution (2015) e Escape (2016). Na última edição (Reborn) o evento assumiu uma identidade firme e vanguardista mantendo-se fiel a seus princípios, seja reservando um palco especial para seus seguidores fiéis dos últimos 10 anos [palco VuuV, dedicado ao estilo psychedelic trance] ou fortalecendo o cenário como um todo, apresentando mais de 140 artistas, em sua grande maioria local. Nesta entrevista com Fernanda Paludo, uma das organizadoras do evento, você descobre como os três pilares da Tribaltech (liberdade, música e inovação) definiram uma trajetória de sucesso e respeito ao público, que se repetirá novamente em outubro deste ano, agora em dois dias de festival.


Como surgiu a ideia da Tribaltech? 

Acho que antes vou contar como e por que eu estava lá neste momento, já que a minha formação é outra.

Em 2004, depois de 3 anos como advogada contratada de um escritório, eu me desiludi com prática jurídica. Decidi então sair do escritório em que trabalhava e estava cuidando dos meus casos em uma sala que montei na antiga fábrica da Psico Street [marca de roupa]. Coincidentemente este foi bem o ano em que o Jeje [co-idealizador do evento e sócio de Fernanda no projeto] decidiu voltar a investir nos eventos e pouco a pouco, quase que por osmose, em me envolvi na produção deles. Na época as festas, que eram quase que unicamente de trance, pela primeira vez estavam dando certo.

Mas logo percebemos que manter aquele modelo significava limitar muito os horizontes. Nossos ouvidos começaram a se voltar para outras vertentes e logo começamos a fazer festas com cada vez mais artistas do progressive e do house. Pensamos então em criar uma nova festa voltada a este nicho que se abria pra nós. Como a idéia era criar algo novo, mas que mantivesse as raízes por onde entramos no mundo da música eletrônica – Tribaltech foi o nome escolhido para o novo projeto, que tinha como caracteristicas o culto à música, à dança e aos rituais que nos levaram até ali, ao lado de muita tecnologia e do que mais houvesse de inovador em termos de entretenimento, além de liberdade musical.

Como é trabalhar na produção de um evento tão grande? E quais são as maiores dificuldades deste mercado? 

Trabalhar em eventos tão grandes e pontuais é complicado pois estes partem do nada. Normalmete não há nenhuma estrutura fixa já preparada para receber o evento ali. A coisa toda vai se desenvolvendo junto para estar pronta na verdade apenas no dia, então é preciso coordenar muito bem as ações de vários setores para que tudo esteja pronto na hora “H”. Eu já trabalhei em grandes eventos onde sabia exatamente onde a minha responsabilidade começava, onde acabava e dei duro para que tudo saisse ‘redondo dentro do meu quadrado’. Trabalhar na Tribaltech é um algo diferente pois é um projeto pessoal que significa muito e no qual eu gostaria de participar de todas as fases e setores. No começo isso era possível, hoje em dia não é mais, mas continua sendo algo bem diferente de trabalho: é um prazer e uma paixão fazer parte deste projeto.

Quanto às dificuldades, hoje em dia já ultrapassamos as dificuldades impostas pela limitação do cenário local, mas lidamos com outras relativas ao novo nicho em que adentramos. Dentro desta perspectiva, a dificuldade está em competir com um mercado global de mega festivais que acontecem pelo mundo todo e mantêm grande parte dos artistas em determinados lugares em cada momento do ano. É preciso então encaixar o nosso festival no calendário mundial, além de tentar sempre chegar próximo do nível dessas produções internacionais. Qualidade custa caro e a nossa maior dificuldade é lidar com o nosso desejo de fazer algo fora dos padrões brasileiros, estando aqui e trabalhando com um orçamento de festival independente.

O público da música eletrônica está ficando mais propenso a novas experiências? 

Eu acho que as pessoas em geral estão mais propensas a novas experiências. Sem duvida é um bom momento para aceitação de novos conceitos e produtos, e a inovação por si só cativa uma grande parcela do público. Porém desde que o mundo é mundo muitas idéias mirabolantes já foram lançadas e seguidas por alguns (ou por vários) durante algum tempo, mas só o que realmente simboliza a cultura de uma geração é que passa a ser fortemente consumido e posteriormente marca aquela época na história. Eu rezo para que algumas das experiências atuais sejam bem breves e que a nossa geração ainda prove que era bem melhor que isso! [risos] 

Captura de tela 2015-07-20 09.56.04

Em 2012 a Tribaltech teve sua última edição e depois de dois anos a festa renasceu. Quais foram as maiores mudanças? E o quão importante foi essa pausa? 

Sem morrer não dá pra renascer, né?! O final daquela história, que depois veio a se tornar uma pausa apenas, foi muito importante pra deixarmos pra trás alguns conceitos que não queríamos mais no festival e trazer pra dentro outros novos que hoje em dia são muito mais a nossa cara.

A contratação de gigantes da música eletronica, aqueles que estão em alta no Mainstream e têm cachês monstruosos, deu espaço à uma cultura de maior valorização do festival como espaço de convivência entre as tribos, além da valorização da cena brasileira como um todo através da participação de artistas de todos os cantos do país. Mais tecnologia e muito mais artes visuais também são uma marca desta nova fase da Tribaltech.

O que significou para a Tribaltech receber o Prêmio RMC de Melhor Festival no início do ano?

Este foi um momento muito especial. O RMC tem se consolidado como um grande veículo agregador da nossa cultura, uma ponte que reúne todos os cantos do Brasil, discute e trabalha com credibilidade pelo mercado nacional de entretenimento. Ter o nosso trabalho reconhecido pelos membros desta instituição foi sem dúvida um grande incentivador para que continuemos firmes no nosso propósito. Produzir um festival desta proporção sem a interferência (nem o patrocínio) de nenhuma grande coorporação representa ao mesmo tempo liberdade e dificuldade, mas nós nunca optamos pelo caminho fácil e vamos continuar mantendo a identidade do festival, que se deve muito à isso também.

O que o público pode esperar da edição 2015 que tem dois dias de duração?

Se eu dissesse que vocês podem esperar algo do nível do ano passado, vocês ficariam felizes?

No ano passado nós apresentamos o conceito desta nova fase da Tribaltech e parece que ele foi aprovado pelo público. Neste ano, como o próprio nome diz, a idéia é Evoluir e desenvolver mais este conceito. O público pode esperar que tudo que foi legal no ano passado, neste ano seja ainda melhor. A idéia de fazer 2 dias de festival e pela primeira vez um camping, que vai intensificar a convivência entre as tribos do festival, aumentando a experiência geral do público. O festival tem uma história de mais de 10 anos e nós achamos que já era hora de marcarmos ainda mais o lugar de Curitiba no mapa fazendo com que neste final de semana de outubro haja uma grande concentração de turistas dispostos a curtir o festival e as belezas da cidade como um todo.

10612533_883471248329720_183117043604473566_n

O evento acontece nos dias 10 e 11 de outubro de 2015, na fazenda Heimari, em Curitiba. INFOS