O club Beehive foi o eleito pelos embaixadores Rio Music Conference como melhor club fora das capitais, em janeiro deste ano. O título é uma homenagem mais do que justa ao espaço, voltado exclusivamente para a música eletrônica há quase dez anos. A casa, localizada na cidade de Passo Fundo (RS) – uma cidade com pouco menos de 180 mil habitantes – já recebeu nomes como James Zabiela, Sasha, Seth Troxler e muito mais. Além disso, possui diversos artistas nacionais no seu rol de residentes, todos estritamente voltados ao house e techno conceitual. Palmas para a Beehive (ou a “BEE” como é carinhosamente chamada) pelo esforço em manter viva a música eletrônica tão longe dos centros urbanos! Abaixo, confira uma entrevista com Nado Carvalho, um dos sócios da Beehive, que conta alguns segredos do sucesso e dificuldades enfrentadas no caminho:

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Criar uma marca longe das capitais exige mais esforço. Qual você acredita ter sido a receita de sucesso do club?
Estar fora das capitais exige um esforço um pouco diferente mesmo. Os investimentos são menores, os custos são maiores, a logística é mais complicada, o poder aquisitivo é inferior e isso tudo acaba interferindo na hora do planejamento do club. Levando isso em conta, é importante entender e respeitar essas limitações, se adaptando e amadurecendo com o tempo. Sempre respeitamos o público e a nossa proposta, seguindo aquilo que acreditávamos e que nos motivou a entrar nesse meio. Esse sentimento nos deu força pra nunca desistir, mesmo em momentos mais complicados. Além disso, sempre acompanhamos o que acontecia nos grandes centros, isso nos manteve atualizados e o público percebeu essa evolução. 

Você acha que esta receita funcionaria se copiada em outra cidade? Ou Passo Fundo tem algo especial?
Acredito que sim. Existem vários bons Clubs com essa mesma particularidade e eu acredito que a persistência, aliada a uma boa equipe, formada por pessoas que acreditam na ideia, amenize a dificuldade. Mas Passo Fundo sempre teve muita tradição noturna, é um pólo universitário e possui também muitas pessoas ligadas a música, que fizeram um trabalho bacana. Isso de certa forma ajudou na construção e introdução da musica eletrônica.

Qual foi o caminho trilhado pela Beehive para manter a música eletrônica viva por tanto tempo na cidade?
O mercado da música eletrônica cresceu muito nos últimos anos e isso fez com que aumentasse muito o número de consumidores deste segmento. O fato de ser afastada de grandes centros faz você ficar atento aos movimentos que acontecem, pois podem refletir diretamente nas ações do Club. Mas a Beehive sempre teve uma proposta bem definida e o nosso papel foi ser fiel a essa proposta. Trabalhamos muito para informar o público local, apresentando novidades na questão musical, visual e de serviços. Sempre buscamos boas atrações e isso possibilitou que a cidade entrasse para o circuito dos grandes artistas, se mantendo atrativa para o público consumidor.

Um mercado forte não é formado apenas por um club. Quais outras influências foram essenciais nessa mescla para obter o sucesso?
Hoje temos diversos núcleos nacionais apresentando bons trabalhos, mas isso não se restringe apenas a clubs, pois abrange também iniciativas como o próprio RMC, que fomenta o desenvolvimento do mercado de forma ampla e proporciona a interação entre esses núcleos. Esse desenvolvimento profissional, nos mais variados setores, ajuda a fortalecer o nosso mercado. Acompanhamos o que acontece de forma geral e buscamos trazer para o nosso cenário aquilo que achamos interessante e condizente com a nossa realidade. Hoje em dia o acesso a referências é mais fácil, possibilitando a conexão real com o que acontece no mundo todo. 

Se você não lidasse com a noite e música eletrônica, qual seria o caminho mais óbvio numa cidade pequena?
Provavelmente eu seguiria o caminho da minha formação acadêmica [Direito], mas a forma que a Beehive foi acontecendo me faz pensar que não teria como fazer algo diferente. Mas a formação foi muito importante e fundamental para lidar com tudo isso, ajudando na construção profissional do Club e pessoal também.

Como tentar apoiar os talentos locais e qual é a importância deles na construção da marca Beehive?
A Beehive tem como seu papel ficar atento, dar oportunidade, incentivar e apoiar as iniciativas dos talentos locais. Elas vão aparecer, mas o sucesso da carreira vai depender do esforço pessoal de cada um. O mesmo ocorre na construção e solidez do Club, pois é preciso saber aproveitar as oportunidades que surgem com estes artistas. Hoje a Beehive possui no time de residentes nomes nacionais super consagrados e talentos locais que souberam aproveitar a oportunidade, correndo atrás e fazendo acontecer para eles.

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Conte um pouco sobre a noite mais louca do clube:
Lembro de uma que fizemos o Seth [Troxler] – ele chegou um dia antes e após recebe-lo e levar para o Hotel, pois queria descansar, combinamos de jantar a noite. Durante o outro dia vimos ele postar uma foto no centro de Passo Fundo, dando uma volta, entrando nas lojas, alguns clientes encontravam ele tiravam foto e postavam. Na noite, após um long set, ele foi pra pista, curtiu com o público e voltou as 9h para tocar, foi demais. Achei muito interessante, pois conversando com ele, ele nos falou que queria sentir a cidade, as pessoas. Essa noite é lembrada até hoje como uma das melhores que se teve no Club.