Se, por um lado, existem DJs que cumprem seu papel dentro dos limites do possível utilizando a tecnologia à disposição e a estrutura do mercado vigente, existem artistas que se expressam de forma multifacetada, encarando a arte de maneira inovadora e oferecendo um respiro para cenários que demandam novidade constante – como é o cenário underground da música eletrônica no mundo. Em poucos minutos conversando com Laercio Schwantes, qualquer um pode perceber que a sua cabeça fervilha de ideias – não à toa o paulistano apresenta hoje 4 projetos live e faz parte de coletivos que vêm ganhando destaque na noite da paulicéia. Seu repertório aparentemente infinito de ideias concretizadas na forma de música e sua originalidade foram motivos que o levaram a ser representado pelo selo alemão Kompakt, um dos mais respeitados do mercado – e também a ser requisitado em vários lugares do mundo. O resultado de toda esta energia e paixão foi reconhecido quando membros do mercado votaram e concederam o Prêmio RMC de Melhor Produtor de 2015 para esta figura de nome misterioso (L_cio), que você conhece melhor na entrevista exclusiva a seguir.

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Radio Virusss, Teto Preto, Gaturamo… de quantos projetos você participa atualmente e qual é sua função dentro deles?

Atualmente tenho 4 projetos de live: Lacozta (com Daniel Cozta), Gaturamo (com Zopelar), Teto Preto (com Laura Diaz, Bica, Zopelar e Benja) e o L_cio. Todos eles estão ativos, tocando, produzindo, etc. Também sou sócio, curador e residente da Capslock; residente da Mamba Negra (a qual também participo das reuniões do grupo), do club D-Edge (como Lacozta, L_cio e Gaturamo) e também faço a Rádio Vírusss com a Cashu (ajudo na transmissão e também na curadoria artística). Também tenho um label – o MEMNTGN – com o Paulo Tessuto e com o Zopelar. Felizmente todos os projetos estão ativos e me mantendo perto daquilo que gosto: a música.

Muitos artistas brasileiros fazem turnês pela Europa, mas a grande maioria não é necessariamente uma atração fora do Brasil. Ter projeção internacional é necessário ou é mais necessário construir algo com consistência nos dias de hoje?

Acredito que hoje o mais importante seja a constância crescente do artista, e isso pode incluir turnês fora do Brasil também. Ser destaque “lá fora” é consequência de um trabalho orgânico, maduro e relevante, e é isso que tenho buscado constantemente, através dos lançamentos, projetos de live, rádio e festas.

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A cena underground de São Paulo vive um momento efervescente. Como você enxerga essa necessidade pelo novo e pelo autêntico em tempos digitais?

São Paulo é uma cidade multicultural – com desigualdades e problemas sociais os quais não vou discutir aqui, mas podemos em outro momento – e tem sido o espaço para o surgimento e amadurecimento dessa “cena”. As locações, por exemplo, que aparentemente são antigas, acabam se tornando justamente a “novidade” nessas festas. A possibilidade de ir a uma festa, independentemente de ter uma atração internacional, sabendo que a festa será ótima, é uma coisa que tem acontecido bastante aqui. E acho isso um excelente feedback – mostra que estamos num novo tempo, em que a experiência da festa é condição essencial para quem as acessa.

A diversidade é o que forma uma boa pista de dança. Você acredita que festas como a Capslock ou Mamba Negra estão reinventando o jeito que as pessoas enxergam a noite?

Acredito que essas festas, assim como outras (Metanol, ODD, Subdivisions…) estão preocupadas com a experiência sonora (com soundsystem excelente sempre), com a experiência visual (iluminação e projeções f@da), locações inóspitas, valores de ingresso e bebidas acessíveis, staff em harmonia com os frequentadores, entre outras coisas… o que faz certamente o público se sentir à vontade e consequentemente interagir com o “diferente”.

“Ser destaque “lá fora” é consequência de um trabalho orgânico, maduro e relevante.”

Em suas apresentações você frequentemente toca flauta. Qual é sua relação com o instrumento e como ele “entrou” neste universo de sons eletrônicos?

Sim, no meu projeto solo (L_cio) toco flauta em algumas apresentações. Estudei flauta transversal dos 7 aos 15 anos e depois de muitos anos sem tocar, tive o prazer de ficar alguns dias na casa do Alan (Portable aka Bodycode) e no último dia lá, ele colocou um disco que tinha som de flauta da música. Quando disse que tocava ele já me pediu uma colaboração em uma faixa, a “Process”, que foi lançada pelo selo Live at Robert Jonhson. Após isso lançamos mais 4 faixas juntos pelo LARJ, mais um lançamento no Perlon, e esse mês uma faixa no novo álbum dele pelo selo !K7. Nesse meio tempo tocamos pela primeira vez juntos ao vivo no Terraza em Florianópolis e depois numa tour pelo LARJ na Alemanha. A partir daí comecei a inserir flauta nas minhas produções e no meu live também, além de colaborações com Patrice Baumel e também com Guti – no projeto Rompecorazones.

Você ganhou o prêmio RMC de Produtor – o que isso significou pra você e como contribuiu para a sua carreira?

Foi muito bacana receber esse prêmio, pois isso mostrou que as pessoas que trabalham nesse meio reconheceram meu trabalho, dentre tantos artistas grandes que estavam lá indicados. Foi realmente uma surpresa ótima. A maior contribuição desse prêmio foi um interesse maior de algumas festas, produtores, DJs e núcleos de fora de São Paulo que começaram a acessar minha música e consequentemente todos os projetos os quais me envolvo – isso foi ótimo, pois contribuiu não só pra mim, mas pra muita gente.

Novo selo, tour e músicas saindo do forno vêm aí, certo? Conta pra nós o que esperar do “mundo de L_cio” nos próximos meses.

Sim, sim! Como citei, tenho um selo com o Tessuto e com o Zopelar, chamado MEMNTGN. Somos distribuídos pela Kompakt e já temos um lançamento digital (L_cio & Cashu feat. Capslock – Traumatesado). Dia 23 de Julho sai o segundo EP com participação de Sebastian Voigt & The Swift (Wilden Renate – Berlim).

Meus próximos lançamentos são:
– 12’ em Julho / Agosto pelo DOC com duas faixas (Traffic e Dog Day)
– 12′ em Setembro / Outubro pelo selo Vox Populi (Berlim) com 3 faixas (Lua feat. Laura Diaz; Lua dub version e Percussive City)
– 12’ em Dezembro pelo DOC com duas faixas (Sentimento e Clarineta feat. Beep Dee)
– 12’ (sem data definida) pelo selo In Their Feelings (do Davis e do Zopelar) com 2 faixas lindas com participação do Violoncelista Filipe Massumi.

Em outubro faço minha segunda tour pela Kompakt na Europa e já tenho confirmadas algumas datas junto ao D.O.C. showcase do Gui Boratto e também algumas datas sozinho. Em breve divulgaremos a tour completa!